Do estúdio tradicional ao Sega CD
Spencer Nilsen, compositor conhecido por seu trabalho no Sega CD, relembra como a transição de estúdio para games permitiu usar músicos, vocais e técnicas de gravação que antes não cabiam em áudio baseado em chip. Para Nilsen, o formato de CD possibilitou gravar performances reais — guitarras, baterias, sintetizadores e vozes — em vez de depender exclusivamente dos chips de som dos consoles.

Ele conta que, quando chegou à Sega, precisou aprender a linguagem da indústria de jogos — afinal não vinha do meio do desenvolvimento — mas recebeu liberdade criativa para definir a identidade musical dos títulos sob sua responsabilidade.
Sonic CD: pressa, colaboração e “Sonic Boom”
No caso de Sonic CD, a equipe americana recebeu a missão de criar uma trilha nova com prazo apertado. Nilsen optou por um caminho próprio em vez de reproduzir a trilha japonesa, trazendo vozes femininas, músicos ao vivo e arranjos elaborados. Ele diz ter ouvido as faixas japonesas apenas no começo, mas preferiu desenvolver uma linguagem musical distinta para o lançamento norte-americano.

O tema vocal “Sonic Boom” nasceu em sessões intensas com o grupo Pastiche e o colaborador David Young. Nilsen lembra da química do grupo em longas noites de estúdio, trabalhando harmonias e letras até chegarem à versão final que acompanha a versão americana do jogo.
Sobre as versões Past, Present e Future dos níveis, Nilsen descreve abordagens variadas: às vezes a diferença vinha de arranjos mais sombrios ou mudanças de modo, outras vezes de soluções inteiramente novas para cada variação temporal, citando peças como Tidal Tempest, Quartz Quadrant e Stardust Speedway entre suas favoritas.
Ecco: criar um universo sonoro subaquático
Para Ecco the Dolphin, o desafio foi distante do rock de Batman Returns: Ed Annunziata queria algo que não soasse humano. Nilsen reuniu uma equipe para construir paletas sonoras originais — amostras programadas em um Kurzweil, texturas tocadas em um controlador EWI e performances de metais e percussão — buscando timbres pouco reconhecíveis como instrumentos ocidentais convencionais.
O uso de amostras (sampling) e do EWI — um controlador eletrônico que permite executar expressões impossíveis em instrumentos acústicos — ajudou a produzir texturas “de outro mundo” e foi parte central da identidade sonora do jogo.
Trabalhar com músicos ao vivo e a cultura dentro da Sega
Nilsen descreve a fase como um período experimental da Sega, quando a empresa investiu em estúdios e procurou desenvolver artistas por meio dos jogos. Projetos como Batman Returns e The Amazing Spider-Man vs. The Kingpin envolveram guitarras, baterias e vozes, incluindo colaborações com Eric Martin (do Mr. Big) em um dos temas de Spider-Man.
Ele destaca a parceria com David Young como indispensável — músico, engenheiro e amigo, que contribuiu de forma decisiva para várias trilhas. Nilsen também confirmou que Young faleceu em julho de 2025.
Atuação atual e retorno a Ecco
Hoje, Nilsen segue compondo, produzindo e ensinando, envolvendo-se em projetos sociais como o EP “Never Give Up”, produzido a partir de ideias musicais criadas por Alex Yiu com auxílio de sua mãe. Nesse trabalho, foram usados recursos experimentais — inclusive a captura de sinais cerebrais convertidos em MIDI durante jams em tempo real.
Ele também tem remixes de faixas de Ecco e está envolvido com Ed Annunziata e Brian Coburn em um novo jogo da série. Nilsen diz que pretende equilibrar manter a essência sonora original com explorações musicais novas, e que a equipe recuperou um Kurzweil K2 com muitas das amostras originais para reaparecerem na nova trilha. A expectativa de lançamento mencionada varia entre 2027 e 2028.
Para quem quiser acompanhar, Nilsen mantém um site com suas músicas e projetos.
Fonte: Retro Replay
