No início dos anos 2000 duas empreitadas ambiciosas propuseram mudar a relação entre jogos de PC, desenvolvedores pequenos e o aparelho de TV: Indrema e a Phantom (Infinium Labs). Arquivos de entrevistas, reportagens e desmontagens de protótipos mostram equipes que chegaram a produzir hardware funcional e demonstrações públicas — mas sem conseguir transformar a promessa em produto disponível no varejo.

Indrema: um console “aberto” para pequenos desenvolvedores

Fundada em janeiro de 2000 em Alameda, Califórnia, a Indrema tinha à frente John Gildred e uma proposta baseada em Linux e em componentes de PC para reduzir barreiras de entrada aos criadores. O modelo L600, com visual semelhante a um reprodutor de DVD prateado, foi anunciado com pretensão de custar US$299 e estrear com cerca de 30 jogos, segundo entrevistas e material promocional da época.

Entre as ideias técnicas estava uma GPU Slide Bay — um slot para atualizar a placa de vídeo por US$50–US$100 — e recursos como DVD, MP3, browser e saída até 1080i. A empresa também criou a Indrema Developer Network para oferecer ferramentas e um SDK gratuito, ao mesmo tempo em que mantinha um sistema de certificação que exigia que pacotes fossem assinados para rodar no console. Richard Stallman comentou na época que esse arranjo não violava a GPL, mas o chamou de “um tanto desagradável”.

Apesar de protótipos fotografados e de uma comunidade ativa em sites preservados, a Indrema anunciou o encerramento em abril de 2001. Gildred citou problemas com calor, sincronização de processos e custos de fabricação, estimando a necessidade de mais de US$10 milhões para seguir adiante. Relatos contemporâneos indicam que a empresa chegou a empregar cerca de 50 pessoas antes do fechamento.

Phantom (Infinium Labs): jogos de PC no sofá e a Lapboard que sobreviveu

A Infinium Labs, fundada por Tim Roberts em 2002, prometeu um receptor de jogos por banda larga que permitiria baixar e jogar títulos de PC sem usar o computador. O projeto ganhou visibilidade em 2003–2004 com especificações que variaram ao longo do desenvolvimento e com a contratação de Kevin Bachus, veterano do projeto Xbox, que renovou o interesse da imprensa.

Na E3 2004 a Phantom reapareceu redesenhada e com uma demonstração jogável de Unreal Tournament 2004, conectada a servidores públicos — prova de conceito de que a máquina poderia integrar-se ao ecossistema PC. O acessório chamado Lapboard, teclado e superfície para mouse pensado para uso no colo, foi outro produto mostrado e acabou chegando ao mercado anos depois.

O plano comercial incluiu oferta de hardware por US$199 ou um modelo “grátis” mediante compromisso de 24 meses a US$29,95/mês (US$718,80 ao total), com catálogo base e vendas/aluguéis adicionais. A data de lançamento anunciada, 18 de novembro de 2004, passou sem entrega. Problemas financeiros, disputas públicas com o site HardOCP e processos culminaram em ações legais e em uma investigação da SEC relacionada a promoções de ações; num acordo posterior Roberts recebeu sanções e uma multa de US$30.000, segundo documentos públicos.

Embora a Phantom não tenha sido comercializada como console, o Lapboard teve revisões publicadas em 2008 e 2010. Em 2016 um colecionador desmontou um protótipo mostrando hardware de PC adaptado, ductos improvisados (um deles feito de caixa de refrigerante) e conexões não finalizadas — um retrato do estado de desenvolvimento em que o projeto ficou.

O legado

Indrema e Phantom não chegaram às prateleiras, mas deixaram registros: protótipos, demos, discussões entre desenvolvedores e processos públicos. Muitos dos jogos que serviram de argumento para essas máquinas — como Quake III, Unreal Tournament, Heavy Gear II e Tux Racer — continuam jogáveis em suas versões de PC e conservam a ideia central dessas propostas: levar experiências de computador para a sala de estar. Os materiais preservados ajudam a contar como promessas técnicas, necessidades de financiamento e disputas legais podem impedir que inovações cheguem ao consumidor.

Fonte: https://retro-replay.com/phantom-indrema-history/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *