Da geração de código para MSX à conversão de jogos entre consoles e micros, desenvolvedores experimentam a IA como ferramenta de criação.
A retrocomputação oferece um desafio curioso às ferramentas de inteligência artificial: produzir software para máquinas com pouca memória, processadores antigos e características que precisam ser respeitadas em cada linha de código.
Para investigar esse encontro, o OldPlayers reuniu experiências brasileiras com um critério específico: o uso documentado de IA durante o desenvolvimento. Isso inclui assistência à programação e à investigação técnica. Um computador antigo acessar um chatbot, por si só, não atende a esse recorte.
Os exemplos encontrados mostram possibilidades interessantes, mas também deixam uma lição: gerar código é apenas uma parte do trabalho. Fazer esse código funcionar nas condições da plataforma continua exigindo conhecimento, testes e revisão.
Fabio Akita: desenvolvimento assistido por IA para converter jogos de NES em Master System
O desenvolvedor brasileiro Fabio Akita documentou o nes-to-sms, um projeto de recompilação de jogos do NES para Master System, desenvolvido com auxílio de modelos de linguagem.
A proposta envolve transformar código para a CPU 6502 em código Z80 e adaptar diferenças de gráficos, memória e som. Em seu relato, Akita descreve o uso de IA para investigar o código e auxiliar na implementação.
Os resultados são parciais. Segundo atualização do autor em setembro de 2026, Super Mario Bros. estava jogável, com lentidão e áudio limitado; Castlevania funcionava na primeira fase; e Super Mario Bros. 3 apresentava renderização. O projeto foi colocado em pausa, com problemas ainda sem solução.
Embora envolva consoles, o trabalho compartilha desafios da retrocomputação: programação de baixo nível e adaptação a recursos restritos. É um exemplo de desenvolvimento com assistência de IA, sem evidência de criação totalmente autônoma.
Fonte: relato de desenvolvimento do nes-to-sms.
Chicletes para o Cérebro: experimentando código de MSX produzido pelo ChatGPT
O blog brasileiro Chicletes para o Cérebro publicou, em fevereiro de 2023, uma experiência de programação para MSX com o ChatGPT.
O autor apresenta uma conversa envolvendo BASIC e Assembly e avalia as respostas da ferramenta. Entre as falhas observadas está uma orientação inadequada sobre um botão “RUN” para executar o programa.
Aqui, a participação da IA ocorre na produção de sugestões de código e explicações. Trata-se de um experimento documentado de programação assistida, e não de um jogo ou aplicativo concluído e distribuído.
Seu interesse está justamente na avaliação: confrontar o que a ferramenta escreve com o funcionamento real da plataforma. Para quem pretende desenvolver software retro com IA, esse tipo de registro ajuda a entender por que uma resposta convincente ainda precisa ser conferida.
Fonte: artigos de programação do Chicletes para o Cérebro.
Leandro Fava: o arcade Galaga chegando ao ZX Spectrum com ajuda da IA
Leandro Fava é um entusiasta do ZX Spectrum e participa de várias listas de discussão sobre a plataforma. Ele resolveu entrar no mundo da IA primeiro desenvolvendo um utilitário para o ZX Spectrum e, depois, em seu projeto mais recente, partiu para a conversão de um clássico dos arcades: Galaga.
Para isso, Fava partiu do código original do arcade, já desassemblado (disassembly), e passou a usar a IA tanto para entender melhor esse código quanto para fazer, aos poucos, a conversão para o Z80 do ZX Spectrum.
Acompanhamos pela lista o passo a passo: as várias tentativas, os bugs que surgiram e as correções, até ele chegar a uma versão praticamente finalizada (“99%”, nas palavras dele), que distribuiu na lista para testes. Fava diz que em breve vai divulgar um link para download, assim que considerar o port de Galaga 100% concluído.
Também com apoio da IA, ele criou um aplicativo multifunção, um verdadeiro canivete suíço para o TK90X. Tudo está disponível na sua página: TK ZX Tools.
Animado com os resultados, Fava já pensa no próximo desafio: converter o Zanac, do MSX, para o TK90X!
BrancoRP2000 entrou na onda e portou Commando para o MSX
Eu, BrancoRP2000, responsável por este site e pelo canal no YouTube, também entrei na onda. Confesso que torci muito o nariz para o uso da IA na retrocomputação, e vou explicar meus motivos.
O que nos leva a usar, ainda hoje, computadores com 48 KB de memória, poucas cores, som de beeper, fita cassete? Analisando friamente, isso não faz sentido numa época em que temos computadores com muito mais armazenamento, velocidade e capacidade de processamento. Então, qual a resposta? Para mim, a maior delas é o saudosismo: vivemos uma época em que os computadores eram daquele jeito, e não havia coisa muito melhor, principalmente para se ter em casa. E hoje ainda achamos divertido poder fazer um pequeno programa em BASIC ou Assembly para driblar as enormes limitações desses sistemas, não é mesmo?
Aí veio a IA e começou a programar por nós. Claro que com a nossa orientação, conhecimento e supervisão, mas quem escreve o código é ela. E ela já está treinada para programar para essas plataformas antigas. Meu grande receio é que todo mundo parta para o uso da IA e isso acabe, de certa forma, matando o prazer de descobrir coisas novas e novas possibilidades dentro dessas limitações. Ou seja, que tire a graça de mexer nas máquinas antigas.
Por outro lado, a IA trouxe novas possibilidades. Coisas que eram muito complicadas para quem não sabia programar (ou sabia pouco), como portar um jogo de uma plataforma para outra, ficaram ao alcance de mais gente. No passado, víamos jogos portados que ficavam lentos demais, ou jogos refeitos em plataformas até melhores tecnicamente, mas cujo resultado final ficava pior que o original.
Resolvi fazer um teste. Assinei uma IA voltada para programação (Claude) e fui orientando o trabalho junto com ela. O objetivo, pessoal: portar o jogo Commando do ZX Spectrum para o MSX. O MSX 1 teve sua própria versão de Commando, mas, a meu ver, bem inferior à do Spectrum, que eu jogava no TK90X (o clone brasileiro do ZX Spectrum). Eu queria um jogo, se possível, idêntico.
O trabalho levou dois dias e cerca de uma dezena de revisões. A cada versão gerada pela IA, conseguíamos reduzir os bugs; aí eu pedia mais correções e ela ia fazendo.
Ao fim desses dois dias, o jogo chegou a uns 99% de fidelidade ao original, superando até as minhas expectativas!
Em breve postarei aqui no site um vídeo mostrando o jogo original e o seu port para MSX 1.
O que significa desenvolver com IA?
A expressão pode abranger participações muito diferentes. Uma ferramenta pode sugerir uma rotina, ajudar a localizar um erro, gerar partes do programa ou participar de sucessivas etapas de implementação.
Por isso, ao apresentar um projeto, vale registrar qual foi a contribuição da IA e qual resultado foi alcançado. Um protótipo, um programa testado e uma proposta ainda em investigação representam estágios distintos.
Nos casos desta matéria, há participação documentada da IA na programação, sempre com um desenvolvedor orientando e revisando o trabalho. Não há comprovação de desenvolvimento integralmente autônomo.
Uma pauta que continua aberta
As experiências reunidas mostram caminhos diferentes: usar a IA para enfrentar problemas complexos de conversão entre plataformas, como fizeram Fabio Akita, Leandro Fava e o próprio OldPlayers, e testar sua capacidade de produzir código para um micro clássico, como no experimento do Chicletes para o Cérebro.
Para ampliar esse levantamento, queremos conhecer trabalhos acompanhados de evidências: relatos dos desenvolvedores, repositórios, demonstrações e explicações sobre as ferramentas utilizadas.
Você desenvolveu um programa, jogo, hardware ou publicação sobre retrocomputação com auxílio de IA? Deixe informações nos comentários!
Levantamento em fontes públicas realizado em 2 de outubro de 2026. Os resultados técnicos dos projetos de terceiros são relatos dos próprios autores e não foram executados pelo OldPlayers para esta matéria. Galaga e Commando pertencem aos seus respectivos detentores de direitos; os ports citados são projetos de fãs, sem fins comerciais.
