Jogar Atari do sofá, sem fio nenhum ligando a sua mão à TV. Em 1981, essa era a promessa do Atari 2700, anunciado como Remote Control Video Computer System. Havia protótipos funcionando, caixas fabricadas, folhetos para lojistas e até anúncio em revista. Só faltou uma coisa: chegar às prateleiras.

Um 2600 de cara nova
Por dentro, o 2700 era um Atari 2600: mesmo processador, compatibilidade total com os cartuchos e acessórios do VCS. Tanto que, na Atari, o projeto atendia pelo apelido de RC Stella — “RC” de radio control e “Stella”, o codinome interno do 2600.
Por fora, a mudança era radical. Saíram a madeira falsa e as chaves de alavanca; entrou uma cunha marrom-escura e lisa, com botões sensíveis ao toque, LEDs vermelhos e uma tampa articulada para guardar os controles. O desenho é de Roy Nishi, então chefe de design industrial da Atari, que dizia ter se inspirado em antigos rádios valvulados da RCA. Repare bem: esse formato em cunha virou a cara da Atari nos anos seguintes, aparecendo no 5200, no 7800 e até no 2600 Jr.
Para quem preferisse fio, o console mantinha as duas portas de controle padrão na lateral, aceitando joysticks, paddles, volantes e o Trak-Ball.
O anúncio de 1981

A peça publicitária vendia exatamente o que o nome prometia: acabar com os fios dos controles sem abrir mão da biblioteca de cartuchos que o jogador já tinha. E trazia um detalhe que parece bobo, mas fazia diferença: os botões Game Select e Game Reset ficavam no próprio controle. Perdeu uma partida de Combat? Bastava apertar o botão para começar outra, sem levantar do sofá e se debruçar sobre o console.
Joystick e paddle no mesmo controle

O controle era a grande estrela do projeto. Cabia na palma da mão, tinha um único botão de tiro e um bastão curto que fazia duas coisas ao mesmo tempo: mexia em oito direções, como um joystick comum, e girava até 270 graus, como um paddle.
Para quem não lembra, paddle é aquele controle de botão giratório usado em jogos que pedem movimento fino, como mover a raquete em Breakout ou defender o castelo em Warlords. Ter as duas funções num só controle, sem precisar trocar nada no console, era uma ideia ótima — e o console tinha um botão justamente para alternar entre os modos joystick e paddle.
A comunicação era por rádio, através de uma antena flexível. Cada controle funcionava com uma bateria de 9 volts e já saía de fábrica definido como jogador da esquerda ou da direita — não dava para trocar.

O sinal que ia longe demais
O problema apareceu nos testes de qualidade. Segundo o acervo do Atari Museum, os controles transmitiam num raio de cerca de 1.000 pés — uns 300 metros. E não havia nenhum sistema de pareamento entre um controle e o seu console: todo controle era apenas “esquerdo” ou “direito”. Resultado: se o vizinho também tivesse um 2700, os controles de uma casa podiam mexer no jogo da outra.
Tinha mais: a eletrônica do controle era baseada na de controles remotos de portão de garagem, o que levantava o risco de interferir em outros aparelhos controlados por rádio. Ninguém registrou um portão abrindo no meio de uma partida de Pac-Man, mas o risco bastava para preocupar a empresa.
E havia ainda o paddle. O ex-funcionário da Atari Jerry Jessop lembrou, em depoimento preservado pelo Atari Compendium, que a função de paddle tinha jitter demais — uma tremedeira no sinal que fazia a raquete “escorregar” na tela mesmo com a mão parada. A situação era tão ruim que o recurso foi desativado nas unidades de demonstração.
Resolver tudo isso exigiria redesenhar o sistema de rádio do zero. A diretoria achou caro demais e engavetou o projeto. Estima-se que pelo menos uma dúzia de consoles tenha sido montada; um deles está hoje no National Videogame Museum, nos Estados Unidos.
O sem fio que chegou às lojas: o CX42
A Atari não desistiu da ideia. Em 1983, lançou os CX42 Remote Control Wireless Joysticks, um acessório para o 2600 que é considerado o primeiro controle sem fio vendido para consoles. A solução foi outra: um receptor separado, ligado às portas de controle do console, e dois joysticks com bateria de 9 V cada. Funcionava também no 7800 e nos computadores de 8 bits da Atari.
O preço da correção apareceu no tamanho: para caber a eletrônica extra que resolvia a interferência, os joysticks ficaram grandalhões, difíceis de manejar e comilões de bateria. Bem diferentes do controle elegante que o 2700 prometia.
Cedo demais
O 2700 mostra que a Atari enxergou o futuro com décadas de antecedência — controles sem fio só virariam padrão nos consoles muitos anos depois. Faltou a tecnologia acompanhar a ideia: alcance, pareamento e precisão do sinal eram problemas que, em 1981, custavam caro demais para resolver. Ficou o desenho em cunha, que a Atari reaproveitou por anos, e a curiosidade de imaginar como teria sido jogar River Raid esparramado no sofá em plena era de ouro dos videogames.
Fontes: Retro Replay, Atari Museum, Atari Compendium e Wikipedia.
